CUIDA BEM DE MIM
O grupo de teatro do Liceu de Artes e Ofícios da Bahia trouxe ao Recife, semana passada, o espetáculo “Cuida bem de mim”, fruto de um projeto social desenvolvido junto aos alunos daquela escola. A montagem se propõe a fazer uma abordagem sobre a violência dentro da sala de aula, refletindo o universo dos alunos-atores, e chegou na capital pernambucana num momento extremamente oportuno, quando se discute na cidade dois casos de violência recentemente ocorridos em escolas locais: o espancamento de um professor, promovido por um grupo de alunos; e o assalto a um estudante, realizado por colegas dentro da unidade de ensino.
“Cuida bem de mim” reúne uma equipe de mais de 20 pessoas e desde a entrada do Teatro (a temporada pernambucana ocupou o Apolo) respira-se juventude. A atmosfera “teen” contagia o espectador, que é recebido por um articulado jovem do grupo, que esclarece um pouco a natureza do projeto. Em seguida, assiste-se a um vídeo, que registra o processo de trabalho, com seqüências dos ensaios e depoimentos dos participantes. Aqui, vale salientar que essa parece ser uma prática interessante para o historiador e estudante de teatro, como documento de um trabalho que muitas vezes se perde na memória dos criadores. Luiz Marfuz, autor e diretor da montagem, já havia mostrado no Recife o registro em vídeo do processo de criação do espetáculo “A comédia do fim”, que ele trouxe para Festival Recife do Teatro Nacional em 2004. Um importante investimento.
O vídeo mostra o encontro dos jovens com a linguagem teatral. Esse encontro parece ser encaminhado (digo parece, porque não se pode perder de vista que o vídeo efetua um recorte) pela via dos afetos, do mergulho na própria identidade, da busca pelo auto-conhecimento. Procedimentos que bebem nas teorias pós-artaudianas e cujo entendimento é de que o ator deve ir em busca de uma expressividade primeva, que será para ele reveladora; que só o contato consigo mesmo poderá lhe conferir a chave para entender o mistério do humano, que ele (o ator) levará para a cena.
Pessoalmente, acho que esse caminho, à primeira vista, parece ser de fato muito revelador, mas isso pode ser um engano. Basta atentar para as sessões de purgação coletiva que o vídeo mostra, com jovens e familiares discutindo problemas de relacionamento, falando sobre intimidades, etc. Enfim, aparentemente, SUPERANDO dificuldades.
O problema todo reside nessa abordagem psicologizante. “Cuida bem mim” efetua uma abordam psicológica para um problema de ordem sociológica. A questão que se coloca é: Em que medida esse mergulho psicológico dos alunos-atores pode ser revelador das estruturas sociais das quais eles são objeto? Em que medida ele pode, dialeticamente, propor mudanças nessas estruturas?
Em cena, tem-se uma escola pública, com todas as suas mazelas e tipos. A sala de aula tem as paredes sujas, bancas quebradas e muita sujeira. A turma está dividida em dois grupos: o dos ajustados e o dos desajustados. Os professores não conseguem desenvolver plenamente suas atividades, porque já não têm condições de lidar com a perda de valores dos alunos ou mesmo porque estão às voltas com as dificuldades da batalha diária pela sobrevivência (é o caso do professor de Matemática, que está sempre atrasado por conta de outro emprego que tem). Além deles, há a diretora, figura que faz valer sua autoridade, mas é omissa com relação aos problemas da escola.
O quadro cênico gera, sim, uma imediata identificação do espectador. E, ao apelar para o cômico, provoca grande empatia com platéia. Dramaturgicamente, no entanto, não se pode deixar de notar a superficialidade com que as personagens são tratadas, com tentativas pouco felizes de apontar a origem de alguns comportamentos, como no caso da estudante do grupo dos desajustados, que usa a sensualidade como arma para amealhar favores masculinos, e, num dado momento da fábula, revela os problemas do ambiente familiar de que é fruto. O que seria a única causa de seu comportamento desajustado.
O espetáculo constrói assim um estranho processo de tipificação, que ao invés de ir em busca do gestus social, prefere ir ao encontro de conclusões psicológicas aligeiradas.
A verdade é que “Cuida bem de mim” investe num modelo dramático-burguês em que a personagem é sujeito de sua própria história. Isso significa dizer que, no caso dessa estudante, apesar do meio do qual é fruto, se ela quiser mudar o curso de sua história individual, ela pode. Crença amplamente difundida pelo sistema, mas cuja falência é uma constatação inequívoca. A montagem lida constantemente com essa idéia, com o princípio de que, isoladamente, o indivíduo é capaz de mudar sua história e o meio. Ingenuidade que se revela no romance entre dois adolescentes da peça, de grupos rivais, cuja ligação é capaz de operar uma mudança radical de comportamento em Sinval (garoto que pertencia à turma dos desajustados).
Nesse sentido, o espetáculo cuida de manter a platéia em seu estado de inércia. Ou melhor dizendo, leva o espectador a concluir que, se ele mudar individualmente de postura, tudo mudará; a concluir que, se professores e alunos quiserem, podem construir uma escola diferente. Sabemos que não é bem assim!
Para responder à pergunta chave do processo “Qual a raiz da violência?”, teria sido mais acertada uma abordagem que encarasse a personagem como objeto, num processo dialético que expusesse as estruturas sociais ao espectador e o provocasse a realizar sua síntese. Mesmo porque o espetáculo responde a essa pergunta dizendo ao espectador que a violência tem raiz exclusivamente dentro dele. E mais uma vez sabemos que não é bem assim!
Apesar disso, há que se ressaltar as qualidades do trabalho. A cenografia trabalha com móbiles, que garantem ricas mudanças de espacialidade. Da mesma forma, a iluminação garante a criação de atmosferas juvenis bastante interessantes. Os atores têm um trabalho vigoroso e impressionante, considerando aí o referencial televisivo das criações. A montagem se esforça por adaptar algumas referências aos modos locais, o que angaria muito a simpatia da platéia.
“Cuida bem de mim” é, portanto, um trabalho que tem qualidades, mas que sofre de um desajuste entre um conteúdo da ordem do dia e uma forma (dramático-burguesa) desgastada, para lembrar Peter Szondi. O que não impede que o grupo possa encontrar, na longa trajetória que tem pela frente (espero eu) esse equilíbrio delicado.
Rodrigo Dourado

