Recados Animados
Criar um Blog-BR
Meu Blog-BR
Denunciar
Próximo Blog
Teatro em Pernambuco

CUIDA BEM DE MIM

Posted on 15/6/2007 at 11:42

O grupo de teatro do Liceu de Artes e Ofícios da Bahia trouxe ao Recife, semana passada, o espetáculo “Cuida bem de mim”, fruto de um projeto social desenvolvido junto aos alunos daquela escola. A montagem se propõe a fazer uma abordagem sobre a violência dentro da sala de aula, refletindo o universo dos alunos-atores, e chegou na capital pernambucana num momento extremamente oportuno, quando se discute na cidade dois casos de violência recentemente ocorridos em escolas locais: o espancamento de um professor, promovido por um grupo de alunos; e o assalto a um estudante, realizado por colegas dentro da unidade de ensino.

“Cuida bem de mim” reúne uma equipe de mais de 20 pessoas e desde a entrada do Teatro (a temporada pernambucana ocupou o Apolo) respira-se juventude. A atmosfera “teen” contagia o espectador, que é recebido por um articulado jovem do grupo, que esclarece um pouco a natureza do projeto. Em seguida, assiste-se a um vídeo, que registra o processo de trabalho, com seqüências dos ensaios e depoimentos dos participantes. Aqui, vale salientar que essa parece ser uma prática interessante para o historiador e estudante de teatro, como documento de um trabalho que muitas vezes se perde na memória dos criadores. Luiz Marfuz, autor e diretor da montagem, já havia mostrado no Recife o registro em vídeo do processo de criação do espetáculo “A comédia do fim”, que ele trouxe para Festival Recife do Teatro Nacional em 2004. Um importante investimento.

O vídeo mostra o encontro dos jovens com a linguagem teatral. Esse encontro parece ser encaminhado (digo parece, porque não se pode perder de vista que o vídeo efetua um recorte) pela via dos afetos, do mergulho na própria identidade, da busca pelo auto-conhecimento. Procedimentos que bebem nas teorias pós-artaudianas e cujo entendimento é de que o ator deve ir em busca de uma expressividade primeva, que será para ele reveladora; que só o contato consigo mesmo poderá lhe conferir a chave para entender o mistério do humano, que ele (o ator) levará para a cena.

Pessoalmente, acho que esse caminho, à primeira vista, parece ser de fato muito revelador, mas isso pode ser um engano. Basta atentar para as sessões de purgação coletiva que o vídeo mostra, com jovens e familiares discutindo problemas de relacionamento, falando sobre intimidades, etc. Enfim, aparentemente, SUPERANDO dificuldades.

O problema todo reside nessa abordagem psicologizante. “Cuida bem mim” efetua uma abordam psicológica para um problema de ordem sociológica. A questão que se coloca é: Em que medida esse mergulho psicológico dos alunos-atores pode ser revelador das estruturas sociais das quais eles são objeto? Em que medida ele pode, dialeticamente, propor mudanças nessas estruturas?

 

Em cena, tem-se uma escola pública, com todas as suas mazelas e tipos. A sala de aula tem as paredes sujas, bancas quebradas e muita sujeira. A turma está dividida em dois grupos: o dos ajustados e o dos desajustados. Os professores não conseguem desenvolver plenamente suas atividades, porque já não têm condições de lidar com a perda de valores dos alunos ou mesmo porque estão às voltas com as dificuldades da batalha diária pela sobrevivência (é o caso do professor de Matemática, que está sempre atrasado por conta de outro emprego que tem). Além deles, há a diretora, figura que faz valer sua autoridade, mas é omissa com relação aos problemas da escola.

O quadro cênico gera, sim, uma imediata identificação do espectador. E, ao apelar para o cômico, provoca grande empatia com platéia. Dramaturgicamente, no entanto, não se pode deixar de notar a superficialidade com que as personagens são tratadas, com tentativas pouco felizes de apontar a origem de alguns comportamentos, como no caso da estudante do grupo dos desajustados, que usa a sensualidade como arma para amealhar favores masculinos, e, num dado momento da fábula, revela os problemas do ambiente familiar de que é fruto. O que seria a única causa de seu comportamento desajustado.

O espetáculo constrói assim um estranho processo de tipificação, que ao invés de ir em busca do gestus social, prefere ir ao encontro de conclusões psicológicas aligeiradas.

A verdade é que “Cuida bem de mim” investe num modelo dramático-burguês em que a personagem é sujeito de sua própria história. Isso significa dizer que, no caso dessa estudante, apesar do meio do qual é fruto, se ela quiser mudar o curso de sua história individual, ela pode. Crença amplamente difundida pelo sistema, mas cuja falência é uma constatação inequívoca. A montagem lida constantemente com essa idéia, com o princípio de que, isoladamente, o indivíduo é capaz de mudar sua história e o meio. Ingenuidade que se revela no romance entre dois adolescentes da peça, de grupos rivais, cuja ligação é capaz de operar uma mudança radical de comportamento em Sinval (garoto que pertencia à turma dos desajustados).

Nesse sentido, o espetáculo cuida de manter a platéia em seu estado de inércia. Ou melhor dizendo, leva o espectador a concluir que, se ele mudar individualmente de postura, tudo mudará; a concluir que, se professores e alunos quiserem, podem construir uma escola diferente. Sabemos que não é bem assim!

Para responder à pergunta chave do processo “Qual a raiz da violência?”, teria sido mais acertada uma abordagem que encarasse a personagem como objeto, num processo dialético que expusesse as estruturas sociais ao espectador e o provocasse a realizar sua síntese. Mesmo porque o espetáculo responde a essa pergunta dizendo ao espectador que a violência tem raiz exclusivamente dentro dele. E mais uma vez sabemos que não é bem assim!

Apesar disso, há que se ressaltar as qualidades do trabalho. A cenografia trabalha com móbiles, que garantem ricas mudanças de espacialidade. Da mesma forma, a iluminação garante a criação de atmosferas juvenis bastante interessantes. Os atores têm um trabalho vigoroso e impressionante, considerando aí o referencial televisivo das criações. A montagem se esforça por adaptar algumas referências aos modos locais, o que angaria muito a simpatia da platéia.

“Cuida bem de mim” é, portanto, um trabalho que tem qualidades, mas que sofre de um desajuste entre um conteúdo da ordem do dia e uma forma (dramático-burguesa) desgastada, para lembrar Peter Szondi. O que não impede que o grupo possa encontrar, na longa trajetória que tem pela frente (espero eu) esse equilíbrio delicado.

Rodrigo Dourado

Maravilha!

Posted on 18/6/2007 at 12:17 by Lano de Lins
Adorei!!! Qualquer dia desse escrevo algo...Hheheh. Olha Rodrigo, aproveitando... eu fiquei imaginando se nao seria legal, criar uma turma de pessoas para formar uma espécie de banca pra assitir os trabalhos do POCHADE e escrever ensaios sobre os trabalhos. Que acha? É uma ótima oprtunidade de deparar-se com 12 propostas cênicas. Que acha da idéia? Podíamos fazer uma exposição desses estudos... sabe.. tipo uns 6 pontos de vista sobre cada trabalho...Estou para sugerir isso oficialmente para Ivonete..MAs acho que poderíamos resolver isso autonomamente......Que acha?
BJ

Last Page | Page 11 of 11 | Next Page

Friends