Neuroses
Antônio Rodrigues é um batalhador. Um dos novos talentos da cena pernambucana, ou da Nova Cena, como já se convencionou chamar. Ladeado por uma série de colaboradores, e sem os auspícios das leis de incentivo, ele conseguiu criar um grupo, a Cênicas Cia. de Repertório, que há cinco anos vem movimentando os palcos do Recife com novas criações. Confesso que invejo esse despojamento e essa força do conjunto que produz utilizando-se do velho recurso do livro de ouro.
Em cartaz no Teatro Arraial, o grupo apresenta até meados de junho sua mais recente montagem, “Neuroses, a comédia”, uma colagem de esquetes de autores brasileiros (Rogério Mesquita/CE, Sérgio Roveri/SP, Antônio Rodrigues/PE, Yuri Yamamoto/CE e Felipe Botelho/PE), tendo como eixo unificador as diversas manifestações do distúrbio comportamental que dá nome à peça. A encenação se propõe ainda a dialogar com o universo das Histórias em Quadrinhos, incorporando elementos dessa linguagem ao trabalho vocal e corporal dos atores, e aos elementos visuais da cena.
Antes mesmo de começar o espetáculo, o público ouve, enquanto aguarda, trilhas sonoras de animações que fizeram sucesso na TV. Isso provoca um imediato congraçamento da platéia, que se compraz em dividir esse mesmo universo simbólico. Efeitos da massificação, que a montagem quer aproveitar. Abre-se a cortina e num rico jogo de sombras, os atores evoluem em frente a um ciclorama (uma malha branca posicionada ao fundo do palco), expondo apenas a silhueta de algumas personagens dos quadros que serão vistos em seguida. É nesse mesmo ciclorama que são projetadas informações, como o título de cada esquete, em fontes que também parodiam o universo da animação.
Paródia parece ser a palavra chave deste trabalho. A cena contemporânea vem utilizando cada vez mais recursos para distender os seus limites, para encontrar-se com outras linguagens. Os diretores têm particular interesse pelo Cinema, pela TV e pelas artes visuais. Esse diálogo resulta de uma mudança na formação estética desses criadores, mas é também uma resposta ao que seriam, supostamente, as limitações e a pobreza da linguagem teatral. Diante da impossibilidade de duelar com essa indústria da imagem, o teatro resolveu cooptá-la.
No último Festival Recife do Teatro Nacional, dois espetáculos mostraram que essa interlocução pode ser, sim, enriquecedora, sem que haja qualquer risco para o teatro. “Pessoas Invisíveis”, da Armazém Cia. de Teatro, transformou o palco do Teatro de Santa Isabel numa set cinematográfico, com proporções e efeitos hollywoodianos, inspirados nas HQs de Will Eisner. Já no Apolo, “Morgue Story”, provocou a platéia colocando atores para dialogar com projeções, com hologramas, numa montagem que parodiava o universo dos filmes de suspense B também de Hollywood. Anos antes, no mesmo festival, em apresentação no Teatro do Parque, a montagem de “A vida é cheia de som e fúria” deixou boquiaberta a audiência com projeções num enorme filó colocado na boca de cena, que faziam mesmo duvidar da presença física dos atores, numa provocação muito positiva.
No caso de “Neuroses”, há ainda outras interlocuções, especialmente na dramaturgia. Os textos aparentam-se com a teledramaturgia das “Comédias da vida privada”, com os escritos de Adriana Falcão e com toda uma linhagem de humor televisivo que inclui “Os normais”, “A grande família”, “A diarista”, “Sexo frágil”, etc. Esse humor se alimenta de pequenas banalidades cotidianas, de situações absurdas e de personagens inusitadas. Tem um formato épico (em quadros) e diálogos frenéticos. Seu universo é o da classe média e sua intenção é ser “inteligente”, ao contrário de uma linhagem mais popular, circense e escatológica, que também tem lugar na grade televisiva, em programas como “Zorra total” e “A praça é nossa”.
O primeiro esquete, “Sabonete Cabeludo” (Yuri Yamamoto/CE), mostra um casal às voltas com o misterioso aparecimento de cabelos estranhos à família num sabonete. O curioso é que ambos, homem e mulher, têm cabelos crespos, e os fios encontrados são lisos. Vale apena atentar para o penteado da esposa, que se assemelha ao de Marge Simpson, de “Os Simpsons”. Para solucionar o problema, surge então um detetive, que acaba por elucidar o caso da maneira mais surpreendente possível. Ponto para Eduardo Japiassu, que interpreta o detetive, e construiu um tipo no mínimo bizarro, com um diálogo efetivo com o universo da Animação. O texto, no entanto, padece de um esgotamento muito comum a esse tipo de humor. O duelo verbal de marido e mulher sobre a origem daqueles fios parece saturar-se em jogos semânticos, trocas de sentido, numa circularidade exaustiva que mantém a ação estática. Só a chegada do detetive promove movimento.
Esse mesmo esgotamento acomete o segundo esquete, “Sala de Espera” (Antônio Rodrigues/PE), no qual uma falastrona aficcionada por jujubas atormenta um cidadão que aguarda por atendimento na sala de espera de um terapeuta. Como nos outros quadros, não se tem muita informação sobre as personagens, apenas características-básicas, assim como circunstâncias que permitem o estabelecimento da situação. O diálogo e a ação, mais uma vez, não evoluem, permanecem circulares. O destaque fica por conta de Karina Cavalcanti, que responde vocal e corporalmente à proposta da encenação de dialogar com as HQs e, graças à sua criação, mantém o mínimo de interesse do espectador pelo quadro.
“Estranhos” (Rogério Mesquita/CE), o terceiro fragmento, já tinha sido mostrado pela Cênicas na Pochade, festival de cenas curtas promovido por Valdi Coutinho, ano passado, no Teatro Barreto Jr. O autor do texto é um dos jovens talentos do grupo cearense A Bagaceira, que trouxe uma versão do quadro dentro do espetáculo “Engodo”, apresentando também ano passado no Festival Recife do Teatro Nacional. É sempre curioso ter contato com duas leituras de uma mesma dramaturgia. O texto mostra o encontro de dois indivíduos que julgam se conhecer, mas não estão seguros disso. As incertezas, as contradições dos enunciados e a ausência de referências sólidas sobre aquelas personagens mantêm o espectador à deriva e, nesse aspecto, o quadro dialoga positivamente com os procedimentos do que se convencionou chamar de absurdismo. A opção pela bipolarização da cena, a reprodução dos movimentos um pelo outro, a relação de positividade e negatividade das cores constroem assim a idéia de indivíduos sem identidade, mas que se refletem. No cômputo geral da encenação, um dos quadros mais bem resolvidos.
Por fim, é a vez de “Inquisição” (Felipe Botelho/PE), que encerra o espetáculo. Com teor eminentemente político, o quadro parece deslocado do restante da encenação. Aqui, parodiam-se os programas religiosos da TV, aqueles em que charlatães exploram a tristeza e a miséria populares, extorquindo os incautos. Um caso clássico de dramaturgia sufocada por conteúdos que lhe são exógenos. Explico-me: aqui, forma e conteúdo parecem não estar em simbiose. Como se o dramaturgo tivesse uma lição, um ensinamento a transmitir, e tivesse achado na forma dramática o melhor meio para fazê-lo. A dramaturgia parece não ter nascido da observação do meio, de uma tentativa real de capturar sua natureza, mas é antes um posicionamento frente a ele. O que acaba redundando num didatismo suspeito, que ao contrário do que pretende, i.e., alertar a platéia, pode manipular seu olhar. Mais uma vez, Karina Cavalcanti tira grande proveito de sua personagem, uma religiosa com acento portenho, que tenta vender pequenos pedaços do céu à platéia. A atriz tem grande poder de improviso, mostrou enorme desenvoltura no contato com o público e foi responsável por um dos melhores momentos da montagem.
O espetáculo não chega a cumprir plenamente sua intenção de dialogar com o universo da Animação. A pesquisa vocal e corporal dos atores precisa ser aprofundada, a fim de que o elenco chegue a uma unidade ideal. Acredito muito na investigação que o grupo propõe, mas acho que ela ainda está a meio caminho. A busca por novas matrizes de criação é sempre um trabalho árduo e enriquecedor, em especial, se pensarmos nessa estranha reinvenção da “Alegoria da Caverna” que o teatro contemporâneo vem realizando. Explico-me novamente: animações são nossas sombras. Na fuga de nós mesmos, fomos ao encontro de nossas sombras, na crença, talvez, de que elas sejam mais reveladoras que a própria realidade lá fora. Assim, o espetáculo se propõe a realizar a mímesis da mímesis, tarefa que merece adensamento.
Penso também que a iluminação poderia ser melhor explorada, construindo formas, campos visuais, criando espacialidades, atmosferas, enfim, dialogando efetivamente com o universo imagético da animação. Da mesma forma, acredito que alguns aspectos da direção de arte precisam ser revistos, em especial maquiagem e figurinos. Há, de fato, uma economia e uma simplicidade que revelam o potencial expressivo (e inventivo) da encenação, mas em algumas situações o trabalho denota descuido, seja na execução do plano de maquiagem, seja na falta de unidade criativa dos figurinos. Nada, no entanto, que não possa ser contornado e amadurecido, ao longo dessa ampla pesquisa em que o grupo agora se lança, e que certamente renderá excelentes frutos para a cena recifense.

