LUZIA AINDA PROCURA SEU CAMINHO
Numa região seca, castigada pelo sol, uma singela margarida agoniza, luta pela sobrevivência. Cabe à sua dona, a garota Luzia, reverter o destino de morte da flor, ir em busca da água. Para isso, ela terá de sair para o mundo, aventurar-se, enfrentar o desconhecido. Essa é a trama de “Luzia na caminho das águas”, novo espetáculo da Cia. Engenho de Teatro, que tem na dramaturgia um verdadeiro achado poético. A fábula, na forma, tem parentesco com “O Mágico de Oz”, com “Alice nos País das Maravilhas” e outras narrativas para a infância e juventude cujo motor da ação dramática é a procura, a busca, a caminhada, o deslocamento, a saída.
Esse deslocamento é quase sempre imaginário, onírico, ficção dentro da ficção. Recurso que, grosso modo, pretende explorar o território fértil da imaginação infantil, único espaço onde a criança pode mover-se, já que no mundo da realidade todos os limites lhe são impostos. Para as crianças de hoje, então, cercadas em condomínios, fechadas atrás de muros altíssimos e monitoradas em tempo integral por pais preocupados com a violência, a imaginação seria a única possibilidade de criar um mundo alternativo ao que está lá fora.
As motivações para esse deslocamento é que variam. Alice perdeu-se e deseja voltar para casa. Dorothy também se perdeu, em meio a um furacão, e anseia voltar para o lar. Nos dois casos, uma lição evidente deve ser extraída pelos pequenos: a saída é sempre perigosa, estar fora de casa implica correr riscos e, sendo assim, essa fuga deve ser operada apenas no âmbito do sonho. Luzia, pelo contrário (daí falar em achado poético) caminha por uma causa mais nobre, uma causa não pessoal, mas coletiva. Caminha em busca daquilo cuja falta responde pela morte de tudo o que está à sua volta.
Considero que a jornada de Luzia tem grandes méritos. Mas acredito que onde se vê movimento, pode haver estagnação. Explico-me: o êxodo de Luzia (mesmo que onírico) difere em muito do êxodo de tantos outros nordestinos e de tantas outras populações que deixam sua terra natal em busca de melhores condições de vida. Difere porque Luzia quer voltar e trazer a bonança para casa. Mas suspeito que a maneira como Luzia encontra a chuva (a água), pelas mãos de uma entidade quase mitológica que domina as forças da natureza, reforça uma certa inércia dessas populações. Inércia que entrega nas mãos do outro (Deuses e políticos!) o poder de resolver problemas e mantém essas gentes num eterno estado de dependência e mitificação.
O processo de criação do espetáculo contou com viagens ao interior de Pernambuco, em busca de brincadeiras infantis esquecidas pelos garotos da metrópole, e pautou-se pelo reencontro dos artistas com o universo infantil. Nos dizeres do autor e diretor Alexsandro Souto Maior: “(encontro) com as crianças que fomos e com as que povoam nossas vidas”. A encenação começa, então, com os atores brincando e desde já se enxerga, claramente, um problema: eles não brincam de verdade, mas fingem brincar. Isso acaba criando um estranho efeito para as atuações, que não mergulham com profundidade no jogo infantil, mas se amparam em muletas, em imagens algo estereotipadas da criança. Assim, o trabalho passa a correr um grande risco, o de reproduzir um modelo já desgastado de interpretação que transforma adultos em infantilóides. De maneira que é preciso aprofundar a pesquisa do trabalho de interpretação, mesmo que em cena passemos a ver adultos redescobrindo o prazer do jogo e não adultos fingindo ser crianças para poder jogar.
Lane Cardoso, que interpreta Luzia, construiu uma personagem ainda sem nuances, sem colorido, sem a pulsação vital que garante a adesão da platéia. Edjalma Freitas vem se revelando cada vez mais maduro em sua busca como ator, mas acaba respondendo no mesmo tom aos parceiros de cena, ainda sem pulsação. Vanessa Lins (excelente em “Nero”, trabalho anterior do mesmo grupo) também não consegue romper a linearidade da equipe, mesmo se desdobrando em vários personagens (inclusive manipulação de boneco). Se é possível vislumbrar alguma reversão dessa falta de colorido no elenco, eu apontaria para o trabalho de Andréa Veruska, que parece mais à vontade com o jogo, parece curtir mais a brincadeira proposta, oferecendo à platéia um trabalho delicado, sensível e cativante. Muito embora em alguns momentos, como aquele em que interpreta um Sabiá, seja ainda necessário aprofundar a pesquisa em torno das vocalidades e das coporeidades, a fim de que seja possível VER a personagem e não apenas inferi-la a partir dos figurinos e das falas. Reforço que essas impressões não pretendem instaurar nenhuma crise ou jogo competitivo dentro do elenco. Não acredito nisso! Mas sim num trabalho onde as descobertas felizes e os bons resultados podem orientar a pesquisa, servir-lhe de norte.
A linearidade do elenco, contudo, reflete mesmo o corpo da encenação. Apesar de dialogar com elementos da tradição popular, como o circo, a música ao vivo e as formas animadas, esses são recursos que não garantem colorido à encenação. A começar pelo espaço. A relação frontal cena-platéia, em um teatro como o Hermilo Borba Filho que se presta a experimentações, já subtrai inúmeras possibilidades de convocar o espectador a viajar com Luzia. Penso que seria bem mais expressivo inserir o espectador nesse trajeto, fazê-lo brincar com essa caminhada, como fez a Armazém Cia. de Teatro com seu “Alice através do espelho”. A encenação de “Luzia...” optou por forrar o tablado com uma grande rosa dos ventos. Desenhada no chão ela se torna um símbolo da viagem, mas é um recurso não explorado em suas potencialidades. Acaba se apagando como um painel, um pano de fundo, com o qual os atores não dialogam, com o qual a cena não dialoga.
O encontro de Luzia com as personagens que cruzam seu caminho e que podem trazer o que ela procura acaba também não sendo aproveitado. Penso que cada personagem deveria trazer o seu mundo para a cena, nesse trajeto em que a garota desvela novos horizontes. Cada encontro deveria proporcionar novo ânimo a Luzia e novo fôlego à encenação. A velocidade com que se dão essas passagens, no entanto, não permite que a audiência possa conhecer essas personagens, desfrutá-las. Naturalmente, Luzia tem pressa em encontrar a água, do contrário, sua rosa morrerá. Mas esses contatos são, dentro da fábula, um momento de suspensão, de um tempo outro que permitirá a Luzia e à platéia enriquecer-se nessa experiência, conhecer o desconhecido. A pressa é tamanha, que mesmo o encontro em que a protagonista acha o que tanto procura é pouco aproveitado.
Considero ainda que a Luz, posto que o nome da personagem central tem essa raiz, é também pouco explorada, não concorrendo para criar as variações, atmosferas, nuances, surpresas e sutilezas tão necessárias a essa fábula. Já os figurinos trazem algo de barroco, no sentido do excesso, que muitas vezes exaure a vista e exige enorme esforço dela, indo de encontro à idéia de velocidade da fábula. Gosto das sobreposições na roupa das crianças, no início do espetáculo, porque me remetem a uma ludicidade no ato de vestir-se própria da infância. Mas insisto que o enxugamento formal da fábula deveria corresponder a um enxugamento da indumentária, na busca da tão almejada unidade criativa.
“Luzia...” é, portanto, um trabalho que precisa de ajustes, mas que ratifica a responsabilidade da Engenho de Teatro com a cena pernambucana. Companhia que agora se aventura no teatro para crianças, sem perder o desejo da pesquisa e sem ceder a fórmulas fáceis de apelo comercial. Nossas crianças agradecem!

