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Teatro em Pernambuco

“O Amor do Galo da Madrugada pela Galinha d’Água” - Não está maduro, mas já tem sabor.

Posted on 15/6/2007 at 11:47

Marconi Bispo *

 

As minhas observações para este espetáculo resultam, antes de tudo, de um profundo interesse por uma oxigenação da cena teatral pernambucana, algo que Samuel Santos e sua “trupe” têm promovido, quer no interessante “A terra dos meninos pelados” de antes, quer neste “Amor do Galo da Madrugada pela Galinha d’Água”, exercício apaixonado e digno de nossos aplausos.

 

E paixão é o eixo central da peça, que agora une o Galo da Madrugada, personificado pelo texto de Samuel, e Galinha d’Água, que todo ano margeia a saída do seu amado no Rio Capibaribe, colorida e transbordada de fantasias afetivas. Ponto positivo para essa brincadeira orquestradora da peça, essa sua ação principal: falar do amor entre estes dois blocos é falar de nós mesmos, pois que o fazemos, somos nós que enchemos aquelas ruas e, neste movimento simbiótico, a identificação com o texto é inevitável. O mote, o princípio gerador deste espetáculo é maravilhoso, levando em consideração o que a sinopse nos fala. Explico: este amor está ameaçado pela sujeira, a poluição impede que o “carnaval” se faça, uma vez que a Galinha não alcança o seu amado atravancada que está pelo rio obstruído. Isso era o que eu esperava, mas, o que se viu, foi o amor impedido por uma correnteza, algo explicitado numa canção que estranhamente declarava “Carrasca água!”.  Ao se desviar a causa do conflito para uma correnteza, uma ação da natureza, deixou-se de discutir um aspecto importante para o mundo contemporâneo: nossa desatenção com o meio ambiente está abortando felicidades, como a do Galo em viver seu amor com a Galinha. Assumir a sujeira que impomos ao rio como a principal causa deste conflito poderia provocar uma atitude reflexiva, poderia nos levar a perceber que somos os principais responsáveis pela direção da alegria no mundo. Isto, todavia, está lá no texto, minorizado agora por esta ação natural, a correnteza, que aparece como grande responsável pelo desaparecimento da Galinha. Conflito posto, nos sentimos instigados a ver a resolução dele. Instaura-se um desejo de ver o reencontro do casal principal. Vamos seguir em frente.

 

Samuel Santos, desde “... os meninos pelados”, tem se esmerado em construir espetáculos utilizando o recurso do palco nu como resolução cenográfica e, neste caminho, é possível vê-lo amadurecendo, construtor de belas cenas em conjunto, o que vemos também aqui. Algumas passagens, porém, se mostram confusas, com marcação que não favorece nem a simples observação de todos os atores em cena e, na maioria das vezes, repleta de signos que não auxiliam na fluência do espetáculo, descambando para um excesso visual que talvez aludisse ao universo momesco. Essas passagens se mostram indecisas e, por isso, sujas. E, neste sentido, os figurinos são detentores das minhas principais ressalvas. Com problemas conceituais e de execução bem evidentes, eles não favorecem a construção arquetípica das personagens, chegando, nalguns casos, a se mostrarem falhos nesta identificação. Pontuo o caso da Cabra Alada e do Elefante que pouco anunciam a pujança carnavalesca destes dois blocos, pairando numa construção limitada e visualmente equivocada, problemas existentes em personagens como a Rua da Concórdia (o mais complicado de todos eles), o Boi e os passistas, citando alguns.

 

O elenco, ainda sem harmonia, sem equilíbrio no conjunto, tem nos atores Alexandre Sampaio e Leidson Ferraz a síntese do que pode vir a ser o caminho de interpretação para os demais: trazer para o corpo as principais imagens depositadas em nossa mente por estas alegorias. Um Galo da Madrugada, altivo, senhor de si, “grande”, é o que se vê na construção de Alexandre que, a despeito da má utilização do personagem no transcorrer da peça (problema dramatúrgico que não o coloca como principal agente da busca por sua amada, fazendo-o “desaparecer” durante boa parte do espetáculo), consegue imprimir tais imagens, o mesmo podendo se dizer de Ferraz. Penso que Luciana Pontual, como a Galinha d’Água, precisa de mais atenção da direção por se mostrar ainda tímida na defesa da personagem, percebendo-se, contudo, uma consciência da mesma do que é aquele universo. As dificuldades vão desde sintonizar-se com o seu par romântico, até melhor utilizar seus recursos vocais, passando por uma apatia que resulta em momentos de pouca graciosidade, algo fundamental naquele papel. Mas são trajetórias bem iniciadas e se ainda não alcançaram um resultado esmerado, creio que o exercício de fazer uma temporada possa resolver isso. Menção para a construção do Senhor Boa Viagem, pelo ator Márcio Tomaz, também trilhando um caminho interessante.

 

Composições belas, arranjos pontuados por ritmos carnavalescos que emolduram este amor, têm na sua execução talvez um único problema: não equilibrar a altura dos instrumentos para um elenco que canta sem microfones, gerando momentos de total supremacia da banda, não permitindo ouvir alguns solos. E no embalo das canções, coreografias executadas com força contagiante pelo elenco, ainda que desaguando em clichês estilísticos quando se trata de citar folguedos populares. Nada de mais exuberante, ainda que, repito, bem executado.

 

A luz aparece como um dos principais trunfos da montagem, planejada e executada de forma competente, alavancando climas importantes para a fruição do enredo, este sim precisando de ajustes para tornar a ação mais digerível, sobretudo para um espetáculo que se define como infanto-juvenil, que se direciona para este público. Digo isto porque percebo falhas na dramaturgia que deixam o transcorrer e o desenvolvimento do espetáculo comprometido, levando-o para soluções ligeiras e abruptas ou omitindo os principais personagens do texto em momentos importantes da peça, algo já apontado aqui.

 

“O Amor do Galo da Madrugada pela Galinha d’Água”, numa visão geral, é o típico caso de um espetáculo que precisava de mais tempo para amadurecer e, levado para a cena antes do seu tempo, denuncia processos inacabados e anuncia gostos que não podem ser tão bem saboreados porque foram obrigados a estarem prontos para uma estréia. Porém, mesmo os frutos esverdeados se mostram dignos de sabores, tal é a responsabilidade de Samuel, Demétrio e toda a equipe para desenvolver tal projeto, tal é o mote que por si já nos revela mentes criativas, caminho para todas as verdades e boas mentiras.

 

* Arte-educador, ator, encenador, convidado pelo dono do blog para se arriscar na árida ação que é escrever críticas para teatro.


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