Recados Animados
Criar um Blog-BR
Meu Blog-BR
Denunciar
Próximo Blog
Teatro em Pernambuco

A CIDADE GENÉRICA DE DRAMALHAÇO

Posted on 15/6/2007 at 11:49

Há um conceito de “Cidade Genérica”, desenvolvido pelo arquiteto Rem Koolhaas, que julgo pertinente resgatar para fazer uma reflexão sobre o espetáculo “Dramalhaço”, dos Doutores da Alegria. Mas o que vem a ser a tal “Cidade Genérica”? Ela representa, grosso modo, um espaço urbano que, por suas características globais (genéricas), assemelha-se a tantas outras metrópoles em redor do mundo. Significa estar em Paris, Londres, Nova Iorque, Tóquio, São Paulo e Recife e estar num mesmo lugar. Trata-se, em verdade, de um processo acelerado de desidentificação da cidade, onde arranha-céus, avenidas enormes, trânsito caótico, shoppings, violência e inúmeras características nos fazem passear por um “mesmo” lugar estando em lugares “diferentes”.

 

Para cidades como o Recife (E aí incluem-se: Salvador, Porto Alegre, Fortaleza, Curitiba etc), que freqüentemente se ressentem de não pertencer ao circuito das grandes metrópoles, essas características são evocadas como sinais do desenvolvimento, como garantias de nossa inclusão no referido circuito. Basta lembrar que, aqui, já houve festas para inaugurar túneis (e, pasmem, eu não fui!) e no orgulho com que empunhamos alguns títulos: Caxangá, maior avenida em linha reta da América Latina! Inês Andreaza, maior conjunto residencial da América Latina! Casa Amarela, maior bairro do Brasil! Etc.

 

Desde a Revolução Industrial, a arte vem tentando dar conta desse novo mundo que se configura no aglomerado urbano. Visões apocalípticas e outras integradas, detratores e entusiastas. Não é demais lembrar do Futurismo e seus congêneres e do Modernismo Brasileiro, esse último, que construiu a simbologia de São Paulo como grande metrópole brasileira.

 

Aqui, considero importante ainda falar da figuração/representação do Nordeste como essencialmente rural, que se solidifica com o Regionalismo Freyriano, se desdobra no Armorial e com a qual até hoje os artistas nordestinos se digladiam. Digladiam-se porque o processo de urbanização da região se efetuou e o homem nordestino dos centros urbanos já não cabe mais nas representações da aridez sertaneja. Trocando em miúdos, estamos falando de um conflito que se arrasta desde os anos 70 entre Armoriais e Tropicalistas, ou entre o Nordeste Rural e o Nordeste Urbano.

 

Inúmeros grupos teatrais têm tentado, desde então, um mergulho no universo desse cidadão urbano e nordestino (embora as representações televisivas transformem esse encontro numa impossibilidade ou mesmo num paradoxo). A questão que se coloca é se essa nova figuração opta por um olhar que problematiza o encontro entre a tradição e o novo, ou entre o local e o global; ou se essa representação, na ânsia de incluir-nos no circuito metropolitano, focaliza o genérico, o cidadão urbano que está em toda grande cidade e cuja identidade local apagou-se. Mais ainda, se esse olhar passeia pelo urbano que já está posto ou vai em busca das camadas profundas da cidade e seus habitantes.

 

A partir dessas reflexões, considero o projeto “Dramalhaço” muito interessante. A idéia de lançar um olhar do palhaço sobre a cidade parece bastante reveladora e propõe uma transfiguração poética que poderia render frutos excelentes para a análise do contexto urbano nordestino, ou melhor, do homem nordestino nesse contexto. A realização revelou-se, entretanto, superficial. “Dramalhaço” opta por um olhar genérico sobre o Recife, por uma visão que revela “mais do mesmo” sobre a cidade.

 

No espetáculo, aparece a cidade genérica e suas representações: velocidade, trabalho, violência, loucura, frivolidade, robotização, reificação. Representações algo desgastadas do urbano e que não o revelam em profundidade. Vemos um trabalhador correndo apressado e sempre de olho no relógio; uma mulher estafada cuja agenda revela a rotina exaustiva de trabalho; uma fútil leitora de revistas femininas; um vendedor de balas evangélico a pregrar pela cidade; duas donas de casa vítimas da violência; dois amigos de infância que se reencontram já adultos; um casal de cônjuges trocados; uma ouvinte de rádio suicida. Há mesmo um momento do trabalho em que os atores parodiam os bonecos playmobil com seus movimentos mecanizados!

 

Ao que tudo indica, eles (os atores) mergulharam em laboratórios de observação do cotidiano urbano e, a partir desse material, produziram improvisações que em seguida transformaram-se no espetáculo. Esse processo não se traduziu, entretanto, na construção de um texto sólido, denso, revelador do humano. Parece que a figuração genérica da cidade chegou antes de uma observação apurada e impediu que se acessasse seus conteúdos profundos. As representações “clicherizadas” do urbano tomam contam do espetáculo e fazem com que ele se assemelhe mais a uma dramaturgia televisiva/classe média/urbana/contemporânea que a qualquer outra matriz dramatúrgica. Até mesmo a forma em quadros, que em princípio parece traduzir o estilhaçamento e fragmentação urbanos, não se impõe no espetáculo como opção estética produtora de sentido.

 

As situações parecem não se sustentar, os encontros parecem não render e o que é pura latência não se manifesta. Sei que a comparação pode soar injusta (como sugeriu a amiga Galiana Brasil a respeito do texto que produzi sobre “Luzia no caminho das águas”), mas é inevitável encontrar filiações e sinto-me tentado a estabelecer paralelos entre a dramaturgia de “Dramalhaço” e a de “Angu de Sangue”. Nesse último, temos um texto poderoso que não se interessa tanto pela evidente velocidade (ah, o vapor!) nem pela evidente mecanização (ah, os Tempos Modernos!) do espaço urbano, mas vai ao encontro das contradições profundas do homem urbano, da violência que está menos no gesto “assalto” e mais na alma desse cidadão. Em “Angu...”, adaptado do livro de Contos do autor pernambucano Marcelino Freire, encontramos verdadeiros Clowns, caricaturas risíveis do humano, bufões pós-modernos. E é na crueldade que Freire encontra a ironia e o humor, alinhando assim seus personagens aos clowns Beckett-Genetianos.

 

Os Doutores da Alegria, no entanto, têm fôlego para mais. Depois do excelente “Poemas Esparadrápicos”, o grupo resolveu aventurar-se no universo adulto com este espetáculo. Pesquisa que merece continuidade, uma vez que o conjunto tem ótimos atores e vem mostrando sua seriedade tanto no trabalho social que desenvolve quanto na cena. Os “Doutores” chegaram para ficar no teatro pernambucano e, gradualmente, vão tatear caminhos novos até alcançarem o amadurecimento de sua proposta.

 

 

Rodrigo Dourado é jornalista, diretor e professor de teatro, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFPE


Last Page | Page 5 of 11 | Next Page

Friends