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Teatro em Pernambuco

A ENTROPIA DA PERFORMANCE EM A PEDRA DO REINO

Posted on 15/6/2007 at 11:59

Por Wellington Júnior*

Antunes Filho é considerado um dos maiores encenadores do mundo, construtor de uma linguagem cênica de grande impacto. Com o espetáculo A Pedra do Reino, teatralização do romance homônimo de Ariano Suassuna, que se apresentou no Teatro de Santa Isabel em Maio de 2007, o encenador paulista articula uma tensão entre o seu performance text e o original literário de Ariano.

Para compreendermos o discurso cênico de Antunes é necessário que relembremos suas opções estéticas e sua trajetória como criador. A formação deste encenador brasileiro ou o seu aperfeiçoamento, ao longo da segunda metade do século XX, se dá basicamente junto aos mestres italianos, como assistente do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia). Fiel a frontalidade na relação palco-platéia , Antunes se destaca tanto como encenador meticuloso quanto encenador-pedagogo, através dos cursos que oferece em seu CPT (Centro de Pesquisa Teatral). Seus espetáculos estabelecem um percurso paradigmático que confirma a vocação autoral desse encenador demiurgo. Dentro de seu estilo de encenação está a presença recorrente do uso do palco vazio com cadeiras, o friso de atores desfilando, a movimentação de massas. Seu estilo formalista - que os expressionistas descobriram de Adolph Appia, muito mais adequado a algumas de suas peças, que desrespeitam os limites de tempo e espaço, exigindo um espaço nu.

A criação do encenador necessita da batalha entre os dois sujeitos da escritura - o escritor e o encenador. A encenação é uma escritura sobre a escritura. Se considerarmos a representação como texto, podemos extrapolar procedimentos utilizados para a leitura do texto literário e considerar os signos como elementos de uma retórica da representação como texto. Sendo a representação compreendida como uma combinação de textos diversos. Podemos então opor o performance text ao text, sendo o primeiro indissociável da materialidade cênica e o segundo tendo uma existência extra-cênica considerada perfeitamente legítima, pois precede a representação e sobrevive a ela enquanto obra literária autônoma.    

Em A Pedra do Reino, Antunes opta por justapor os dois discursos sem uma integração dialética, parece que vemos dois espetáculos diferentes em cena um do texto e outro das imagens construídas pelo encenador. Assim seu discurso cênico (que inclui todos os elementos do espetáculo e principalmente o trabalho dos atores) termina por entrar num processo de entropia. Temos em performance uma cena imagética auto-referente que se dilata ao máximo de seu discurso, e esse fica sem relevo quando durante todo o tempo se contenta apenas em trabalhar a transparência do sentido, ficando em um estado de entropia da performance, fazendo do texto apenas uma ilustração da imagem.      

Mesmo assim Antunes consegue construir um espetáculo de rara beleza visual, podendo-se discordar de algumas das colocações em que tal discurso se apóia. Pode-se sobretudo indagar se uma abordagem como essa não comporta o risco de mitificar o discurso cênico, e  por conseguinte até certo ponto mistificar uma obra cujo nível de comunicação explícito situa-se em planos bem mais evidentes. Mas não pode-se negar o rigor metodológico do discurso cênico de Antunes, evidentemente, presente no apuro do desenho cênico e na composição de seus atores-objetos (dialogando com a prática cênica dos encenadores Tadeusz Kantor e Robert Wilson). Portanto é de extrema importância ver o espetáculo A Pedra do Reino para que possamos acompanhar esse momento cênico onde Antunes parece-me rever seu discurso passando em revista seus procedimentos, mesmo que em estado entrópico. 

*Wellington Júnior é professor de teatro e pesquisador.


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