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Teatro em Pernambuco

A ECONOMIA RADICAL DO CAPATAZ DE SALEMA

Posted on 15/6/2007 at 12:04

 

No Capataz de Salema, o Mar, para além do mito que ele representa, é fonte de toda riqueza e beleza daquele universo enfocado. Porém, é também e antes de tudo, o campo de trabalho, de batalha cotidiana pela sobrevivência. Esse mar que oferece aos homens tantas dádivas é, na opinião da endurecida Luzia, um campo de injustiça e morte” (João Denys Araújo Leite em Um Teatro da Morte)

Por Rodrigo Dourado (rodrigodourado78@gmail.com)

É de uma radicalidade absoluta a economia em “O capataz de Salema”, espetáculo realizado pela Fiandeiros, sob direção de André Filho, a partir de texto de Joaquim Cardozo. Essa economia se traduz no trabalho corporal e vocal dos atores; em parte dos demais elementos visuais do espetáculo (cenografia e luz); bem como no movimento conciso da cena desenhada por André Filho.

Acredito que essa seja, de fato, uma opção no sentido de priorizar a exuberância da linguagem dramatúrgica cardoziana, como se ao essencializar os elementos visuais, a atenção do espectador não se desviasse do texto verbal; mas, essencialmente, penso que essa é uma ousada posição estética da companhia, que se propõe a suspender cenicamente a profusão e a sujeira visual, sonora, simbólica do nosso tempo, oferecendo, assim, uma cena limpa, de uma aridez total, por isso mesmo, de difícil fruição.

A fábula, com bem aponta Denys no seu estudo sobre o teatro de Cardozo, é onde o autor alcança “o maior grau de concisão dramatúrgica” de sua obra e isso está traduzido cenicamente de maneira precisa. A ação mostra a chegada noturna do Capataz à casa de Luzia numa última tentativa de convencer a filha de pescadores a aceitá-lo como companheiro. Luzia, no entanto, que vive e cuida da avó adoentada, de nome Sinhá Ricarda, rejeita o pedido do rapaz, brutalizada que está pela vida de infortúnios.

A partir desse conflito, um longo diálogo é entabulado entre os personagens, a mobilidade, entretanto, será alcançada não pela cessão de um ou outro lado, mas pela morte de Sinhá Ricarda. Livre da tarefa de zelar pela avó, Luzia abandona o lar, mas não vai em busca do homem rejeitado, segue em direção oposta, rumo ao desconhecido.

A condição de pobreza das personagens e do ambiente, ou subalternidade, como também indica Denys, parecem ser elementos fundamentais aqui. Mais uma vez, a economia cênica se sustenta como tradução simbólica dessa escassez, dessa secura, dessa falta de recursos materiais.

No entanto, as alegorias da linguagem de Cardozo revelam o poder de transfigurar poeticamente o real que permanece latente mesmo (ou talvez especialmente) nas camadas subalternas, conferindo àquelas entidades uma nobreza ímpar. Esse espaço do imaginário, da exuberância poética, está cenicamente materializado na construção de um outro plano, por trás do plano real, ocupado por três parcas que tecem a vida das personagens exercendo a função de um coro, ou do mar, que narra e guia a ação.

Devo dizer, entretanto, que a opção em transferir claramente para a espacialidade o conflito entre o real e o simbólico, ou entre a aridez e a poesia, demarcando uma fronteira entre esses territórios, confisca em alguma medida as nuances e o colorido das personagens.

Apesar de reconhecer, como aponto no início desse texto, a justeza e a precisão com que se traduziu cenicamente a economia da fábula, acredito que as relações entre a aridez do real e a poesia do imaginário neste texto estão de tão forma imbricadas e são de tal forma essenciais para sua construção que uma relação mais fluida entre elas poderia ser estabelecida.

As personagens aqui são metáforas de elementos da natureza, ou de forças mitológicas, claramente o Mar (representado pelo capataz) e a Terra (representada por Luzia). É na cadência desse encontro, desse contato, que o ritmo da cena vai ser determinado. Luzia com raízes fincadas no solo, resistindo às tentações do mar, que sua história mostrou ser sinônimo de morte. E o Capataz a oferecer as maravilhas que só o oceano poderá proporcionar, tentando seduzi-la com promessas de uma nova vida. Esse jogo de fluxos e refluxos, de tensão entre vida e morte, é, em alguma medida, atenuado pela encenação, ao encarcerar as personagens num mesmo plano. Que dizer, então, de Sinhá Ricarda que respira morte, mas ocupa um lugar inteiramente poético povoando de alucinações e delírios a cena.

Ao final, Ricarda morre, sendo transformada em fogo por sua neta Luzia, que, por sua vez, se desprende da terra e transforma-se num vento que anuncia a esperança da mudança e vai ao encontro de outras paragens. Revelando, assim, novamente, a fluidez desses elementos e apontando para uma mobilidade que, em princípio, o texto de Cardozo parece rejeitar, mas que um olhar mais demorado perceberá claramente ser o leitmotiv da fábula. Assim, penso que a encenação da Fiandeiros acerta muitíssimo ao exercitar a economia, com trabalhos de ator bastante interessantes, mas precisa encontrar estratégias para trabalhar a mobilidade da cena. Mobilidade conquistada por Luzia a duras penas e não através de expedientes mais fáceis (opção que a Cia., assim como a personagem, tão nobremente faz), mas que aponta para a vitória da vida sobre a morte.

Cadê o texto?

Posted on 19/7/2007 at 06:29 by Lano
Desistiu de divulgar meu texto foi?
Beijos

Comentário Sem Título

Posted on 21/6/2007 at 06:49 by Anonymous
só para registrar que foi alberto guzik quem postou o comentário anterior e tontamente esqueceu-se de assinar. abraços.

Comentário Sem Título

Posted on 21/6/2007 at 06:47 by Anonymous
belo comentário, rodrigo. a função da crítica está toda aí. faz refletir, historia o processo, pondera e amplia a compreensão do que foi visto. muito bom.

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